Alta Floresta (MT), 25 de março de 2019 - 22:57

Brasil

16/03/2019 07:11 Fonte: Metrópoles

Brumadinho: contaminação da água está 20 vezes acima do permitido

Quase dois meses depois do rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho (MG), o rio Paraopeba ainda registra índices de turbidez (que é a turvação da água) quase 20 vezes acima do limite permitido pela legislação.

Segundo Marcos Camargo, presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), o Paraopeba tornou-se um depósito de rejeitos de minério de ferro. A elevada turbidez reduz a transparência da água por causa das partículas sólidas em suspensão, que impedem a propagação da luz e dificultam a oxigenação.

Nas medições dos últimos dias, a turbidez registrada no Paraopeba, no trecho mais afetado pela descarga de rejeitos, em Brumadinho, foi de 1.800 NTU (do inglês Nephelometric Turbidity Unit), 18 vezes acima do limite de legal de 100 NTU.

Nos 60km seguintes do rio, até o município de Esmeraldas, a turbidez varia de 400 e 1.000 NTU, quatro a 10 vezes acima do limite permitido. Apesar de altos, os índices já são bem menores do que o pico registrado no dia seguinte ao rompimento da barragem, em 25 de janeiro, que foi de mais de 80.000 NTUs (800 vezes acima do permitido).

O rompimento da barragem despejou cerca de 12 milhões de metros cúbicos de lama no córrego Ferro-Carvão (conhecido como córrego do Feijão entre os moradores da região), que, por sua vez, a esparramou no Paraopeba. Foi tanta lama que trechos do rio, onde a profundidade chegava a 2m e 3m, ficaram completamente soterrados, sobretudo perto da confluência com o córrego.

Segundo Camargo, o Paraopeba provavelmente irá manter índices de 200 a 300 NTU em vários trechos por muito tempo, principalmente nos períodos chuvosos, por causa da massa de rejeitos já despejada nele e pelo fluxo contínuo que ainda desce pelo córrego Ferro-Carvão.

O estrago no manancial também é gigantesco. Cerca de 10km do Ferro-Carvão foram completamente destruídos e serão de dificílima – se não impossível – recuperação, tal como ocorreu com o rio Gualaxo do Norte, no desastre da barragem da Samarco, em 2015, em Mariana (MG).

O Gualaxo foi o primeiro rio a receber a carga de rejeitos da barragem de Fundão (antes do rio Doce) e hoje em dia se assemelha a um valão. No caso do córrego Ferro-Carvão, a avalanche de lama devastou porções significativas de Mata Atlântica que ocupava suas margens, levando junto a fauna local.

Diferenças  Os peritos já sabem também que os rejeitos de minério de ferro da barragem da Vale têm características distintas do rejeito que estava no reservatório da Samarco. O rejeito da Vale tem capacidade de sedimentação muito mais elevada, o que indica que uma grande quantidade de lama deverá ficar depositada no fundo do rio.

Já o rejeito da Samarco tinha uma fração maior, que praticamente não sedimentava, ficando dispersa como colóide (uma espécie de gelatina) nas águas do rio Doce e nos demais afetados pelo vazamento.

Uma das hipóteses em estudo pelos peritos é que tal diferença possa ser explicada por variações no processo produtivo da mina e geração dos rejeitos, além do tempo de existência da barragem da Vale (começou a ser construída em 1976 enquanto a da Samarco era de 2008).

Segundo Marcos Camargo, havia em torno de 48% de teor de ferro no rejeito armazenado na barragem da Vale. É considerado um teor tão alto que, antes do desastre, a mineradora tinha planos de fazer um reaproveitamento econômico do material, antes da desativação (ou descomissionamento) da barragem.

O monitoramento da turbidez nos rios está sendo feito com mais precisão neste desastre. A Polícia Federal tem acesso a imagens de satélite com um mecanismo de bandas especiais. Com isso, é possível mapear a distribuição do rejeito ao longo do rio Paraopeba, diferenciando o sinal emitido pelos sedimentos em relação ao material original presente na água e no fundo do rio.

Os peritos investigam também se a lama já chegou à Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo, o último obstáculo antes da usina de Três Marias, ponto de encontro entre os rios Paraopeba – por onde a lama está se deslocando – e o São Francisco.

Eles acreditam que a represa de Retiro Baixo, a cerca de 300km do local do rompimento, deverá reter bastante material, atrasando a propagação da lama por cerca de dois meses, antes de chegar à represa de Três Marias, já no São Francisco.

Quando chegar no interior da represa, em função da grande extensão e profundidade do reservatório, o tempo de permanência da lama está estimado em em mais de um ano. A partir de então, o restante do rio São Francisco, a jusante (parte baixa) da represa estaria sob risco de contaminação pelos rejeitos.


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